O case de transformação editorial apresentado no Social Media Week SP

Em 2016, fui convidada para palestrar no Social Media Week São Paulo, um dos principais eventos internacionais de comunicação, redes sociais e cultura digital da época. A participação teve como foco um processo de transformação editorial conduzido dentro do Testosterona Blog, então um dos maiores portais masculinos do Brasil.
A palestra abordava um tema que começava a ganhar força naquele momento: como reposicionar editorialmente um veículo construído sobre uma lógica tradicional de conteúdo masculino sem perder relevância, audiência ou conexão cultural.
Um portal masculino em transformação
Quando assumi a frente editorial do projeto, o portal já possuía uma audiência consolidada e um posicionamento fortemente associado ao humor masculino da internet dos anos 2010. O desafio não era reconstruir a marca do zero, mas entender como torná-la editorialmente mais sofisticada diante de mudanças culturais, sociais e comportamentais que começavam a atravessar o ambiente digital.
A transformação aconteceu de forma gradual, principalmente através da ampliação das pautas e da construção de uma linha editorial mais consistente. O conteúdo passou a incorporar cobertura de eventos, resenhas, entrevistas e discussões sobre comportamento, entretenimento, consumo e lifestyle a partir de uma abordagem menos caricata e menos excludente.
Mais do que uma mudança estética, existia uma preocupação clara em construir um ambiente editorialmente mais responsável e mais alinhado às conversas contemporâneas sobre gênero, representação e comportamento, ainda que essas discussões precisassem ser traduzidas para a linguagem e para a dinâmica daquele público específico.
Estratégia editorial e reposicionamento de audiência
Parte importante desse processo também envolvia minha atuação na estratégia de conteúdo e no relacionamento comercial do portal, articulando projetos, pautas e posicionamentos de marca dentro de um cenário digital que ainda operava sob uma lógica muito diferente da atual.
Ao longo desse movimento, o perfil da audiência começou a mudar de forma significativa. O portal, antes majoritariamente masculino, passou a atrair também mulheres e a ampliar sua relevância para além do nicho de humor masculino, aproximando-se editorialmente de veículos de comportamento e lifestyle mais consolidados no mercado.
Levar essa discussão ao palco do Social Media Week representava, naquele contexto, um reconhecimento importante sobre como mudanças editoriais também são movimentos de leitura cultural e posicionamento de marca.
A discussão sobre mulheres e comunicação digital
A repercussão desse trabalho também levou a discussão para outros espaços do mercado de comunicação naquele período. Em 2016, participei da segunda edição do Mulheres Digitais, evento realizado na Faculdade Cásper Líbero e voltado à presença feminina no mercado de comunicação, tecnologia e produção de conteúdo digital.
A palestra abordava justamente os desafios de construir novas perspectivas editoriais dentro de um dos maiores portais masculinos do país, discutindo não apenas transformação de conteúdo, mas também representação, linguagem e os limites culturais da internet brasileira naquele momento.
Participar de um evento centrado na atuação de mulheres no ambiente digital trouxe uma camada especialmente simbólica ao projeto: mais do que reposicionar editorialmente um veículo, tratava-se também de ocupar um espaço de liderança criativa e estratégica em um segmento historicamente dominado por vozes masculinas.
Comunicação como leitura cultural
Hoje, olhando em retrospectiva, esse projeto continua sendo um dos trabalhos que melhor traduzem minha visão sobre comunicação: conteúdo não apenas como entretenimento ou audiência, mas como construção de repertório, percepção e relevância cultural.

